Em carta de 23 de dezembro de 1866, endereçada aos seus familiares no Rio, o
tenente Taunay, combatente na guerra do Paraguai, mostra-se aflito com a
insalubridade da vila e a indefinição dos rumos que deve tomar sua coluna
estacionada em Miranda, antes de sua partida para Laguna:
Dizem que o novo presidente de Mato Grosso, Couto de Magalhães dirige-se a
toda a pressa para o Coxim, para onde devem passar estas forças antes de seguir
para Cuiabá; vindo as de lá para a fronteira. Teme-se complicações sérias com a
Bolívia e querem tomar providências a respeito, mandando-nos para o Norte. Até
quando viajaremos? Far-nos-ão percorrer o mundo inteiro? Estou já
aborrecidíssimo com esta vida, cujos espinhos só se apreciam metido nela até o
pescoço como me acha.
Breve chegará aqui Camisão e mais que provavelmente conduzirá logo as forças
para Nioaque, onde dever-se-á fazer um estacionamento conveniente ao
restabelecimento das praças que muito tem sofrido do clima pernicioso desta
vila. [...]
Temos tido chuvas e mais chuvas; todas as tardes há pancadas, umas sobre
outras, torrenciais, que enchem logo todas as depressões do terreno que se
transforma em lagoazinhas e bacias, fontes de febres intermitentes.
FONTE: Taunay, Mensário do Jornal do Comércio, Rio de
Janeiro, 1943, página 345
sábado, 23 de dezembro de 2017
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
Senadores reagem e escapam de atentado em Cuiabá
Em luta aberta contra o governador Mário Correa, os senadores oposicionistas Vespasiano Barbosa Martins e João Vilasboas sofrem em Cuiabá atentando, em 22 de novembro de 1936, de repercussão no Estado e em todo o país:
A nossa pacata cidade de Cuiabá assistiu estarrecida e indignada, na noite de 22 do mês passado, a execução de um plano tenebroso, que visava a eliminação dos dois preclaros chefes da ‘Aliança Mato-Grossense’, senadores João Vilasboas e Vespasiano Martins, ultimamente chegados a esta capital.
Por volta das 22 horas daquele dia, depois da saída da última visita, dispunham-se já aqueles dois ilustres representantes matogrossenses no Senado da República a recolherem-se aos seus aposentos, quando a casa em que se hospedavam foi inopinadamente invadida por numeroso grupo de perigosos facínoras, arrebanhados em diversas localidades.
Penetrando na casa, o primeiro a ser visto foi o senador João Vilasboas que recebeu o primeiro tiro, ferindo-o no ombro direito.
Aos disparos desse primeiro tiro, acode o senador Vespasiano com o seu revólver em punho, recebendo logo a cerrada fuzilaria dos assaltantes.
Com uma coragem indômita, deteve o nosso valoroso chefe, um dos celerados, ferindo dois deles, obrigando-os a sair em debandada.
Terminada aquela luta infrene, desigual, estava a esvair-se em sangue o destemido chefe. Havia recebido três ferimentos: um na região acromial esquerda, com fratura do osso; um outro no terso superior da coxa direita, mais um outro na região deltoidiana direita e ainda mais um raspão de bala no antebraço direito, sendo que destes ferimentos só o da coxa apresentava orifício de entrada e saída.
O episódio é narrado pelo senador Vespasiano Barbosa Martins em entrevista ao correspondente do jornal A Noite, do Rio:
- Felizmente, estou bem. Deve ir bem todo aquele que viu a morte a dois passos...Eu posso dizer que a vi em tão pouca distância, de que que os sicários que invadiram a casa onde eu me encontrava hóspede com o Vilasboas, quando nos recolhíamos, dispararam as sua armas contra nós quase à queima roupa. Só não fomos imolados, miseravelmente, graças à minha atitude.
Atingido no braço esquerdo, pude ainda correr até a cômoda do meu quarto e daí retirar o revólver, com o qual enfrentei os miseráveis. Estes debandaram pelos fundos da casa, é verdade que depois de me ferirem em várias partes do corpo. O pijama com que me achava vestido está cheio de perfurações.
- Apresentam gravidade dos ferimentos?
- Muita gravidade, não. E o meu médico aí - aponta o dr. Virgínio Correa - garante que desta vez não vou...Tenho receio é de perder o braço esquerdo. O ferimento fez-me sofrer horrivelmente; basta dizer que a bala está encravada no osso.
O dr. Virgínio Costa afiança, entretanto, que o estado do doente não é muito lisonjeiro. Todas as precauções foram tomadas, mas deve-se levar em conta que três da balas que o atingiram ainda não foram extraídas.
O sr. Vespasiano Martins tem tido febre e há várias noites não consegue conciliar o sono.
Consultamos o senador se nos permitia bater uma chapa. Ele pensa em recusar, mas depois diz:
É bom mesmo, para que a Nação inteira veja o que se passa no meu Estado, no meu infeliz estado, que melhor sorte está a merecer!
Fizemos, ao invés de uma, duas chapas. E deixamo-lo em palestra com amigos, que ali afluíram ansiosos por saber notícias mais positivas de seu estado de saúde.²
FONTE: ¹Rubens de Mendonça, História do Poder Legislativo de Mato Grosso, Assembléia Legislativa, Cuiabá, 1967, página 239. ²Jornal A Noite (RJ), 2 de janeiro de 1937.
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
Nasce em Cuiabá, Manoel de Barros
Filho de
João Wenceslau Leite de Barros e Alice Pompeu Leite de Barros, nasce em Cuiabá,
em 19 de dezembro de 1916, Manoel de Barros. Ainda criança mudou-se para o
Pantanal da Nhecolândia, no município de Corumbá, onde foi alfabetizado por sua
tia Rosa Pompeu de Campos. Fez seus estudos primários em Campo Grande no
Colégio Municipal, dirigido pelo professor João Tessitore Júnior, onde foi
aluno da professora Olívia Enciso. Fez o curso secundário no Rio, onde segundo
ele, despertou para a poesia, depois de ler Antonio Vieira.
Em 1934 iniciou o curso de Direito. Concluiu o curso mas nunca advogou, dedicando-se à literatura. Seu primeiro livro foi "Poemas concebidos sem pecado", de 1937, com tiragem de 20 volumes. Em 1942 publicou "Face imóvel" e em 1956, "Poesias", pela Editora Pongetti. Ganhou em 1960 o Prêmio Orlando Dantas, patrocinado pelo jornal Diário de Notícias do Rio de Janeiro, com o livro "Compêndio para uso dos pássaros". Em 1965 vence o prêmio nacional de poesia da Fundação Cultural do Distrito Federal, e com o dinheiro editou em 1969, a sua "Gramática expositiva do chão".
"Matéria de poesia", segundo ele, foi o livro mais elogiado de sua obra. Em 1982 lançou "Arranjos para assobio", pela Editora Civilização Brasileira. Em 1985 saiu "Pré-coisas", seguido pelo "O guardador de águas" (1989), "Concerto a céu aberto para solos de aves" (1991) e "O livro das ignorâncias".
Assim Manoel de Barros se define:
Minha poesia é uma reflexão permanente. A palavra me atinge de tal modo, que a língua passa a inventar coisas. Nunca escrevi uma palavra que não tenha roçado no meu corpo. Minha poesia é marcada por um constante morrer e renascer. Essa permanente metamorfose está presente em toda a minha obra. Acho que é importante para qualquer poeta reviçar as coisas. Descobri, por exemplo, que uma palavra arcaica tem o poder de dar viço novo a qualquer outra já gasta. É por isso que gosto de ler os clássicos quinhentistas. A partir da palavra aprendo a inventar. Ela é o fio condutor que nos faz penetrar em nossos ancestrais.
Manoel de Barros faleceu em 13 de novembro de 2014, em Campo Grande.
FONTE: Maria da Glória Sá Rosa e outras, Memória da arte em Mato Grosso do Sul, UFMS/CECITEC, Campo Grande, 1992,página 45.
FOTO: trabalho em bronze de Victor Henrique Woitschach (Ique).
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
Decreto regulamenta nova lei da colonização de Mato Grosso
Nessas condições, acham-se as que ladeiam a E. F. Noroeste do Brasil, na largura de 10 quilômetros para cada lado, de Três Lagoas a Porto Esperança; as que distam menos de 6 quilômetros das margens dos rios Taquari; do São Lourenço e seus afluentes, na secção navegável; do Jauru; do Cabaçal; do Sipotuba; do Paraguai, até Santa Ana.
Ademais, por vezes, o governo tem experimentado apressar a colonização, de que há mister o Estado, mediante concessões a empresas particulares, que se comprometem a fundar núcleos coloniais, em retribuição aos favores que lhes são prometidos.
Até hoje, mais avultada se apresenta a colonização espontânea, tendo resultado improfícua a tentativa de estabelecimentos de núcleos coloniais, de que se encarregaram vários concessionários.
Todavia, a colônia de Terenos, fundada pela municipalidade de Campo Grande, ao tempo do intendente Arnaldo de Figueiredo, com o auxílio do Estado, na presidência de Pedro Celestino, prosperou e constitui exemplo convincente das possibilidades de iniciativas análogas.
FONTE: Virgílio Correa Filho, Mato Grosso, Coeditora Brasílica, Rio de Janeiro, 1922, página 180.
sábado, 16 de dezembro de 2017
Na guerra do Paraguai, forças brasileiras acampam em Coxim
Primeiro acidente aéreo em Mato Grosso
É registrado em 15 de dezembro de 1933 o primeiro acidente aéreo no Estado. A notícia é dada, sem destaque na última página do Jornal do Comércio, de Campo Grande, três dias depois:
"Ao contrário do que se esperava, não tivemos, anteontem, domingo, correspondência de Cuiabá.
Saíra daqui, sexta-feira última, o avião Pirajá para Corumbá,chegando de véspera de S. Paulo.
Nesse mesmo dia, fazendo ligação entre Corumbá e Cuiabá, viajara da primeira dessas duas cidades o hidroavião Blumenau que naquela precisa data deveria chegar à capital do Estado.
Devido, certamente, ao demasiado da carga, o Blumenau teve que afluviar inesperadamente, antes de Porto Jofre, que é uma das etapas estabelecidas na margem direita do rio Paraguai. O aparelho sofreu danos, ao que estamos informados, não podendo prosseguir viagem.
Felizmente nenhum de seus passageiros ficou ferido.
Em substituição ao Blumenau, é esperado hoje, aqui, o avião Bandeirante, procedente de S. Paulo, que seguirá logo para a Princesa de Paraguai. Naquela cidade, essa nave aérea mudará as rodas por flutuadores e viajará para Cuiabá, ficando na carreira em lugar do aparelho avariado.
Quinta-feira entrante deverá estar nesta cidade, como de costume, mantendo a carreira, o avião Pirajá, procedente da capital paulista".
O jornal campograndense encerra a notícia, tentando justificar o acidente:
"É de justiça, salientar-se, em louvor da Condor, que este é o primeiro acidente de monta que sofre um aparelho seu, em Mato Grosso, durante centenas de viagens realizadas.
Acidente também que confessamos, com gosto, não haver determinado nenhuma vítima".
Alguns detalhes desse desastre seriam dados em março de 1934, quando o mesmo jornal noticiava o segundo acidente no mesmo trecho:
"No primeiro, ocorrido perto de Porto Jofre, ficaram feridos vários passageiros, e o aparelho ficou completamente inutilizado".
O serviço de transporte via aérea em Mato Grosso começou em 16 de setembro de 1930, com o voo entre Corumbá e Cuiabá.
FONTE: Jornal do Comercio (Campo Grande) 19 de dezembro de 1933 e 4 de março de 1934.
FOTO: O Pirajá, da frota da Condor, do acervo do Correio de Corumbá.
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