terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Leverger assume o governo do Estado




Acumulando as funções de comandante das Armas, assume a presidência da província de Mato Grosso, em 11 de fevereiro de 1851, em seu primeiro mandato, Augusto Leverger, o barão de Melgaço. A sua nomeação fora uma decisão do ministério do Marquês de Olinda, embora o nomeado fosse francês de nascimento. 

"A posse de Leverger - segundo Estevão de Mendonça - foi revestida da solenidades, principalmente pela presença de muitas senhoras, o que estava fora dos hábitos de então e a Câmara Municipal se fez representar pela quase totalidade dos seus membros. Dois únicos vereadores deixaram de comparecer, por motivo de moléstia":

Pelas 9 horas da manhã, presentes os vereadores Antonio de Cerqueira Caldas, padre Joaquim Antonio da Silva Rondon, Joaquim Antonio da Costa Guimarães, Teodoro José da Costa Roriz, Antonio Luis Brandão, Rômulo Pinto de Sousa, Luis Moreira Serra e José de Lara Pito, o presidente da câmara declara aberta a sessão e diz que "tendo recebido uma portaria do exmo. sr. Presidente João José da Costa Pimentel, comunicando achar-se exonerado do cargo de presidente desta província e de achar-se nomeado para o dito lugar o exmo. capitão de fragata Augusto Leverger, cuja portaria, datada de ontem, marcava hoje às 10 horas do dia, para esta câmara dar juramento e posse ao dito exmo. sr. Leverger, e sendo lida a portaria o sr. presidente nomeou para membros da comissão que tem de receber o mesmo exmo. sr. os vereadores padre Rondon, Santa Cruz e Roriz e suspendeu a sessão".

Dada a hora, continua a ata da sessão, "compareceram os exmos. srs. capitão de fragata Augusto Leverger, presidente nomeado e coronel João José da Costa Pimentel, presidente exonerado e tomando eles assento, passou o presidente exonerado a ler o relatório do estado da província e do ocorrido durante sua administração, e logo que acabou a leitura dobou-o e entregou-o nas mãos de seu sucessor. Lidas as cartas imperiais de nomeação e exoneração, o presidente da câmara apresentou ao exmo. sr. Augusto Leverger um missal sobre o qual pôs a mão direita e jurou aos Santos Evangelhos bem desempenhar as atribuições que lhe eram confiadas.

Leverger substituiu ao coronel João José da Costa Pimentel e governou até 1° de abril de 1857, data em que passou a administração ao vice-presidente Albano de Souza Osório. Viria a reassumir o governo por diversas vezes, perfazendo um total de "sete anos, oito meses e vinte e quatro dias, ligando o seu nome a importantes melhoramentos e deixando imperecíveis testemunhas de sua competência, zelo e honestidade".

 
FONTEEstevão de Mendonça, Datas mato-grossenses, Casa Civil do Governo do Estado, Cuiabá, 1973, página 88.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Morre ex-governador Caetano de Albuquerque





Aos 68 anos, falece no Rio de Janeiro, em 10 de fevereiro de 1925, o general Caetano Manuel de Faria e Albuquerque. Cuiabano, presidente do Estado, de 15 de agosto de 1915 a janeiro de 1917, foi protagonista de um dos períodos de maior convulsão na história política de Mato Grosso republicano, resistindo a um pedido de impeachment da oposição na Assembleia Legislativa e desencadeando sangrenta reação armada, que ficou conhecida como Caetanada.
 
Ao final das escaramuças, o impasse, que resultou em sua renúncia, juntamente com todos os deputados, ensejou o chamado governo de conciliação, encabeçado por dom Aquino Correa.

 
Sobre seu governo e sua personalidade, generosamente depõe Nilo Póvoas:

 
Igual ao militar brioso e idealista; igual ao parlamentar insigne e operoso, foi o presidente impoluto e de larga visão. Dotado de altivez indomável e de caráter independente, tentou Caetano de Albuquerque implantar na governança do seu Estado uma política administrativa baseada nos salutares princípios de uma democracia sadia, de respeito a todos os direitos. Seria um governo ideal, que satisfazia aos anseios da oposição e. em geral, do povo matogrossense, já cansado dos processos abastardados que de há muito vinham infelicitando o Estado de Mato Grosso.¹ 


Sobre a sua morte e sua vida, jornal do Rio, deu a seguinte nota:

"Faleceu anteontem às 22 horas, em sua residência à rua general Canabarro, n° 317, o sr. General Caetano Manuel de Faria Albuquerque, vitimado por uma angina pectoris.

O enterramento foi verificado ontem às 17 horas, no cemitério São Francisco Xavier, sem as honras militares devidas ao seu alto posto, por ter sido este o seu desejo.

O general Caetano de Albuquerque nasceu a 11 de janeiro de 1857 no estado de Mato Grosso, tando assentado praça a 26 de abril de 1871. Durante sua vida militar desempenhou vários cargos, alcançando elogiosas referências do governo.

Político, o então capitão Cae cotano de Albuquerque foi chamado à Constituinte como representante do seu estado natal, sendo depois, deputado por mais de uma legislatura.

Fazendo parte do grupo oposicionista à política de Floriano, o general Albuquerque foi preso, para, pouco mais tarde, ser solto em virtude de uma defesa escrita que apresentou àquele marechal.

Retirado por momentos das lutas políticas, o extinto foi eleito em 1915, presidente de Mato Grosso, cargo que, devido às várias dissenções ali ocorridas nesse tempo, muitos dissabores e aborrecimentos causou ao referido militar.

Dado também às letras o general Caetano de Albuquerque deixou trabalhos esparsos sobre os mais variados assuntos, chegando a publicar, porém, entre outros volumes, o Dicionário Técnico Miliar, Corografia do Brasil, Manual do Empregado no Comércio, etc. além da resposta, que, como presidente do referido Estado, ofereceu à Assembleia Legislativa sobre a denúncia que contra o autor do trabalho foi apresentada à mesma Assembleia.

Era casado em primeiras núpcias com d. Adelaide de Melo Albuquerque de quem houve quatro filhos; e em segundas núpcias com d. Ana Josefina da Mota Albuquerque, já falecida, tendo desse matrimônio cinco filhos. Possuía numerosos netos e um bisneto.

Os últimos anos de vida consagrou-os o general Caetano de Albuquerque exclusivamente aos carinhos da família e aos estudos de gabinete.

Era o extinto reformado no posto de general de divisão e formado em engenharia".²



FONTE: ¹Nilo Póvoas, Galeria dos varões ilustres de Mato Grosso, Governo do Estado, Cuiabá, 1978, página 33. ²Jornal do Brasil (RJ) 12 de fevereiro de 1925.
FOTO: Jornal do Brasil.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Toma posse no governo do Estado, Camilo Soares de Moura


  
   
Nomeado interventor com o fim do movimento político que resultou na renúncia de Caetano de Albuquerque e de todos os deputados estaduais, toma posse em 9 de fevereiro de 1917, em Cuiabá, com um secretariado completamente estranho às dissenções  políticas da terra, Camilo Soares de Moura.

Nascido em 29 de outubro de 1869, em Ubá (MG), foram seus pais o coronel Camilo Soares de Moura e dona Amélia Peixoto Soares. Bacharel em Direito, foi promotor na comarca de Ponte Nova, onde exerceu também os cargos de juiz municipal e de prefeito, tendo ainda ocupado a judicatura em Bambui e Manhuassu.

Representou o Estado de Minas como deputado estadual e federal. Deixando a prefeitura de Caxambu passou a exercer a direção geral dos Correios e ministro do Tribunal de Contas.
 
Sobre seu exíguo período de governo, Estevão de Mendonça dá o seguinte testemunho:


Tomando as rédeas do governo logo após uma luta armada, o interventor federal veio encontrar o Estado à beira da anarquia e a sua autoridade impediu a permanência de tal situação. Se o dr. Camilo Soares como administrador não deixou de si provas de atilamento, outro tanto não se pode dizer quanto à sua orientação política. Apercebendo-se da gravidade do momento, e colocado entre dois grupos de partidários exagerados, em luta aberta de posições, o interventor procurou solucionar o conflito sem deixar que um exercesse supremacia sobre o outro. 


Tendo deixado o governo em 13 de agosto para atender notificação judicial no Rio de Janeiro, Camilo Soares retornou a Cuiabá a tempo de dar posse ao bispo Dom Aquino Correa, em 21 de janeiro de 1918. Em sua ausência foi substituído pelo general Cipriano Ferreira, a quem coube comandar o processo eleitoral para escolha dos cargos no executivo e legislativo do Estado.



FONTES: Estevão de Mendonça, Datas Matogrossenses, (2ª edição) Governo de Mato Grosso, Cuiabá, 1973, página 86.

IMAGEM:http://goo.gl/kso6IO

Rondon contra a divisão de Mato Grosso


Rondon, o general contra a divisão do Estado

Em entrevista ao Diário de S. Paulo, em 8 de fevereiro de 1934, o general Rondon manifesta-se contra a ideia separatista, apontando as seguintes razões:

a) o movimento secessionista só é amparado pelos filhos de outros Estados, que não votam verdadeiro amor a Mato Grosso; b) o Norte do Estado é o mais próspero e não tem interesse em retardar o progresso do Sul; c) O Sul não tem elementos para se constituir em Estado da Federação, não possui recursos econômicos suficientes, estando ainda em fase pastoril; d) os divisionistas não estão apoiados em razões de ordem moral ou material”.


Os divisionistas responderam ao general através de um folheto de março seguinte, datado de Maracaju. 


FONTE: J. Barbosa Rodrigues, História de Mato Grosso do Sul, Editora do Escritor, S.Paulo, 1985, pagina 146.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Militares rebeldes derrubam governador de Mato Grosso



Movimento sedicioso, encabeçado pelo coronel João da Silva Barbosa, comandante do Distrito Militar de Corumbá, destituiu em 1° de fwvereiro de 1892, o presidente Manoel Murtinho (foto). “No dia 1º de fevereiro pela manhã – recorda Lécio G. de Souza – as forças rebeldes desembarcavam a jusante do porto de Cuiabá e céleres, avançaram pelas ruas centrais. A tropa do 8º, da guarnição da capital, doutrinada pelo major Caetano de Albuquerque, afastado o tenente-coronel João Maciel da Costa do seu comando, fez causa comum a do 21º de Corumbá. Sem encontrarem qualquer resistência da parte das demais corporações militares ficaram senhores absolutos da situação. Na mesma data depunham, por um golpe de força, o presidente Manoel Murtinho”.

Manoel Murtinho reassume o governo em maio com a derrota dos rebeldes pelo batalhão patriótico sob o comando do coronel Generoso Ponce.

FONTE: Lécio G. de Souza, História de Corumbá, edição do autor, Corumbá, sd., página 79

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Expedição Langsdorff chega a Cuiabá




Aporta, finalmente na capital da província em 30 de janeiro de 1827, a expedição científica, chefiada pelo barão Jorge Henrique de Langsdorff, cônsul da Rússia no Rio de Janeiro, incumbida de efetuar exploração em Mato Grosso e Amazônia, patrocinada pelo czar Alexandre I.

A chegada da missão a Cuiabá é descrita pelo desenhista Hercules Florence em suas anotações de viagem:

Enfim a 30 de janeiro de 1827, atingimos o porto tão desejado de Cuiabá. Aproamos ao troar das salvas de mosquetaria que partiam de entre os nossos e eram correspondidas de terra. O guarda da alfândega levou-nos para o seu escritório, enquanto esperávamos os animais que deviam evar-nos até à cidade, distante um quarto de légua.Os Srs. Riedel e Taunay tiveram a bondade de mandá-los com prontidão, avisando que viriam receber-nos. Com efeito não tardaram a chegar em companhia de várias pessoas da localidade e de um negociante italiano chamado Angelini.

Fomos imediatamente ter com o presidente e dele tivemos mais cortês e amável tratamento durante os oito ou dez dias que nos reteve em seu palácio como hóspedes.

Florence aproveita a estada na capital da província para mostrar o que viu na cidade:

A cidade de Cuiabá é cercada de colinas que com ex­ceção da parte ocidental limitam-lhe o horizonte. O plano em que assenta é inclinado até à base dos outeiros do lado meridional, onde corre um riacho chamado Prainha que em direção quase reta vai para oeste e, separando a cidade de um de seus arrabaldes, atravessa uma planície de quarto de légua, com curso paralelo ao caminho do porto, até cair no rio Cuiabá. No tempo seco fica todo cortado e chega a desaparecer.

As ruas que de este vão para oeste têm pequeno declive de subida e descida, mas as que lhe são perpendiculares, de sul a norte, o têm mais sensível, bem que em geral suave. Ao sair da cidade para o lado norte, eleva-se o terreno ainda por espaço de 300 a 400 passos, formando um campo chamado de Boa Morte, por aí existir uma igreja desse nome.A cidade pode ter meio quarto de légua de poente a nascente e dois terços dessa distância de norte a sul. Não há senão 18 ou 20 casas de sobrado, esse mesmo pequeno: todas as mais são térreas. Cada casa tem nos fundos um jardim plantado de laranjeiras, limoeiros, goiabeiras, cajueiros e tamarindeiros, árvore cuja folhagem densa e escura
forma no meio das outras agradável contraste, concorrendo todas elas para darem à povoação aspecto risonho e pitoresco.

Rebocam-se por fora as habitações com tabatinga, que lhes dá extrema alvura: entretanto muitas há, principalmente nos arredores, que conservam a cor sombria da taipa de que são feitas, bem como todos os muros e cercados. Não há uma só casa que tenha chaminé: a cozinha faz-se no jardim debaixo de um telheiro.

O edifício em que estão o presidente e a intendência chama-se palácio: é térreo; as janelas, únicas na cidade, têm caixilhos com vidros. Há uma cadeia, em cujo sobrado trabalha a câmara municipal; um quartel para a tropa, uma casa da moeda e quatro igrejas: a de Bom Jesus que é a catedral, sem nada exteriormente que a recomende, a de Nossa Senhora do Bom Despacho, a de Nosso Senhor dos Passos, e a da Boa Morte, além de uma capela consagrada a Nossa Senhora do Rosário. Outra capela fica no Hospital da Misericórdia, edifício não concluído e onde mora o bispo. Para os morféticos há uma casa, situada a meia légua sul da cidade. A meio quarto este vê-se perto do porto uma grande
construção que havia sido começada para quartel. Por enquanto não é senão
um corpo de guarda.

Na casa da moeda bate-se somente o cobre que é mandado do Rio de Janeiro e ao qual se dá valor duplo do que tem no resto do Império. Há também uma fundição para pôr em barras o ouro. O único passeio que tem a cidade é o caminho de meio quarto de légua de extensão que vai ter ao porto. Aí só se vêem 15 ou 20 casas, algumas canoas, guanás, caburés, negros e mulatos.
Quando chove, as crianças entretêm-se em procurar ouro no meio das ruas, porque nos regos d’água que se formam descobrem sempre algumas palhetas. Por toda a parte anda-se aqui por cima dele; nas ruas, nas casas que não são ladrilhadas, nos jardins, não há polegada de terra que deixe de o conter. O pescador na sua choupana pisa o precioso metal; metade de um dia, porém, de trabalho em buscar arrancá-lo do solo lhe traz menos vantagem que a pesca de um único pacu. É contudo o objeto de extração que os habitantes conseguem. 

Os diamantes se acham no Quilombo, distante 14 léguas e daí a 30 no distrito Diamantino. Estes dois artigos, ouro e diamantes, constituem a riqueza da província; nada mais se exporta a não ser diminuta porção de açúcar e de tecidos de algodão, com destino ao Pará.

Não tratam da agricultura nem da criação de animais senão para Não tratam da agricultura nem da criação de animais senão para acudir às necessidades da alimentação. Por toda a parte cercados de desertos, dos quais o menos vasto tem 100 léguas de largo, não poderiam os cultivadores exportar o sobressalente de suas colheitas ou os resultados de sua indústria sem gastos que elevariam o preço dos produtos de medo a não suportarem a mais ligeira concorrência. As produções do país são a cana, da qual se extrai o melhor açúcar do Império; o fumo que é excelente; o algodão, o café, feijão, milho, mandioca e tamarindo que aí se acha mais abundante que em qualquer outra parte e do qual se fazuma massa para exportação.

Limita-se a indústria à exploração de minas e ao fabrico de peças de algodão grosso de que se veste a gente pobre. Faz-se aguardente de cana de superior qualidade. É a principal bebida do país, bem que esteja também em uso o vinho, cuja procura é limitada em razão do alto preço. Cada garrafa custa com efeito de 1$200 a 1$800, o que faz com que sejam motivos de luxo e ostentação franqueá-las aos convivas por ocasião de festas de casamento
ou batizados. Assisti às bodas de um homem apatacado, nas quais se beberam
200 garrafas de vinho, o que representa uma despesa de mais de 200$000
(1.250 francos). Quase igual quantidade consumiu-se num batizado. Os
casos de embriaguez não são raros. 

Cria-se muito gado vacum que por toda a parte encontra excelentes pastos; também a carne de vaca em Cuiabá é suculenta; há muitos porcos cuja banha serve para o preparo da comida; galinhas em abundância e tão baratas que por 400 réis (50 soldos) pode-se as ter à mesa do almoço, jantar e ceia; carneiros e cabras, estes em menor quantidade, etc. Não há falta de cavalos; a qualidade, porém, é inferior. Parte deles vem dos guaicurus. As bestas são mandadas
de São Paulo. Em viagem, é de uso servirem os bois mansos de animal de carga.

Não se acha ouro em porção que dê algum lucro, senão nos arredores da cidade ou a algumas léguas de distância. Se, porém, se empregassem os meios de que usa a companhia inglesa em Minas Gerais, cavar-se-ia melhor a terra, achando-se ainda tesouros imensos. Hoje o dia de trabalho de um preto não rende mais de 300 a 400 réis, salvo o caso de algum achado feliz.

Cuiabá deve sua fundação à grande quantidade de ouro que deu o terreno em que assenta, cujas escavações e buracos atestam hoje quanto foi revolvido. Nos primeiros tempos dos descobrimentos dos paulistas encontraram-se folhetas que pesavam até uma arroba, único incentivo que chamou uns sertanistas ávidos de riquezas e os impeliu em solidões desconhecidas, levando tão-somente espingardas, pólvora, bala e sal. Embarcaram em Porto Feliz e seguiram a rede de rios que lhes pôde proporcionar dilatadíssima viagem. Chegados ao ponto onde hoje é Cuiabá, a um caçador depararam-se grandes pedaços de ouro no alto da colina em que se ergue presentemente a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Parou então a caravana. Meteram as canoas no ribeirão Prainha, que nesse tempo era navegável e hoje não por terem sido desviadas as águas, levaram quanto puderam do encantado tesouro e voltaram
para São Paulo, contando maravilhas.

Reuniram-se logo multidões de aventureiros que formaram novas expedições, ficando muitos deles no país novamente descoberto em companhia das mulheres indígenas que encontravam ou das que haviam levado consigo. O número foi crescendo e com ele aparecendo dissensões e lutas causadas pela avidez em tirar ouro. Então cuidaram de constituir uma espécie de governo e para legalizá-lo mandaram pedir chefe em São Paulo. A colônia, debaixo do nome de Cuiabá, nome dos índios que aí habitavam, fez rápidos progressos, aumentando continuadamente com a chegada de novas bandeiras, que, não se satisfazendo mais com o que encontravam, seguiram para diante e foram descobrir, a 100 léguas para O., Mato Grosso, donde provém a denominação de toda a província. Aqueles intrépidos sertanistas teriam sem dúvida ido até ao oceano Pacífico, se os espanhóis não ocupassem as costas. Suas ousadas explorações chegaram com efeito a dar cuidados à corte de Madri que se queixou à de Lisboa, mandando reclamações a tal respeito.

O modo de extrair ouro é o seguinte: fazem-se grandes escavações e transporta-se a terra, à medida que se a vai tirando, para uma área preparada à beira de um rio, córrego ou lagoa em paralelogramo de terra batida e conseguintemente dura, cujos lados são fechados por tábuas, exceto o que encosta à água. O plano é inclinado e o todo se chama uma canoa. Deposita-se a terra que se quer lavar na parte superior e sobre ela lança trabalhador de contínuo água para que facilmente corra a porção que for mais destacada e leve. Em seguida, depois de repetida esta operação, põe ele certa quantidade na beira de uma espécie de alguidar de pau chamado bateia e com um pouco d’água imprime ao todo um movimento circular, de modo que de cada vez o monte de terra seja lambido pela água. Se houver ouro, as menores partículas depositam-se logo no fundo.

Costumes dos Habitantes de Cuiabá

Descrever os costumes gerais da população de Cuiabá, é decerto descrever os de todos os brasileiros; entretanto aqui várias circunstâncias locais concorreram para dar hábitos peculiares à terra, imprimindo-lhes cunho característico e, embora pernicioso, de certo modo original.

A população não passa de 6.000 habitantes, a de toda a província de 30.000, sem contar os índios mansos e muito menos os bravios. Entretanto pelo conhecimento mais ou menos exato dos aldeamentos de uns e hordas dos outros, creio que seu número não chegará a 6 ou 7 mil almas, de modo que numa zona muito maior que toda a França não há mais de 37.000 habitantes.
Tão pouca população provém de que não há 125 anos que Cuiabá foi descoberta e todos quantos procuraram estas terras atraídos só pela posse do ouro, uma vez conseguido esse fim, trataram de se ir embora para gozarem das riquezas ganhas em país mais civilizado. Os que se deixavam ficar, ricos em pouco tempo e no meio de solidões, só cuidaram em satisfazer os sentidos. Entregaram-se a grosseiros prazeres e viveram com amásias, não se lhes dando de formar famílias e educar os filhos, quando os tinham, nos sãos princípios da religião e da moral. As mesmas causas ainda hoje persistem em Cuiabá, embora se manifeste salutar tendência para a modificação. Os casamentos ainda são
pouco freqüentes. Geralmente só se casam os homens já maduros que buscam
uma companheira para os tempos da velhice. Os mais vivem amancebados e nem se limitam a isso, entretendo intrigas amorosas com pessoas casadas e solteiras.

As mulheres de classe média e sobretudo inferior, são muito livres nas suas conversas, modos e costumes. Além do contínuo exemplo da licença geral e quase desculpada, recebem pernicioso influxo do contato dos escravos, negros
e negras, cujas paixões violentas não vêem peias à sua expansão. A fidelidade conjugal é, muitas vezes, falseada. Apesar de temerem os maridos e considerá-los como amos e senhores, sabem perfeitamente enganá-los. Não faz muito que elas começam a aparecer à mesa de jantar ao lado dos parentes e maridos. Entretanto em todas as casas do sertão, onde recebi hospitalidade, nenhuma delas se apresentou, ficando sempre no fundo dos aposentos, a menos que não seja a pessoa já muito familiar. Conheci, contudo, uma senhora muito bem falante, civilizada e espirituosa. Três outras nas mesmas condições tinham, porém, já sua idade e, apesar do muito que haviam dado que falar em sua mocidade, passavam por tipos de virtude.

As moças filhas de pais pobres nem sequer pensam em casamento. Não lhes passa pela cabeça a possibilidade de arranjarem marido sem o engodo do dote e, como ignoram os meios de uma mulher poder viver de trabalho honesto
e perseverante, são facilmente arrastadas à vida licenciosa, na qual, justiça se lhes faça, apesar de pertencerem a todos, nunca mostram a ganância e as baixezas das mulheres públicas da Europa.

Quem exercita em Cuiabá ofícios e artes são quase todos mulatos. Conheci um padre de cor parda, muito eloquente no púlpito e na conversação; outro, quase negro, era um desses raros talentos modestos, cuja ambição única é instruir-se.

O clima da cidade é muito quente, sua latitude 15°36’S. O rio é farto de pescado, sobretudo de junho até fins de dezembro. Então é o alimento principal do povo. Pescam- se muitos pacus, dourados, piracanjubas, piaus, piracachiaras, jiripocas, palmitos, cabeçudos, corimbatás, peixe-rei, etc. É tanto o peixe que os bois, cavalos e pretos ou guanás vão curvados ao seu peso vendê-los pela cidade. De todos é o pacu o mais gordo e mais abundante, bem que não seja o mais delicado; sabe, contudo, bem ao paladar e a quantidade é tal que fornece a combustível com que se iluminam todas as casas. Acontece
até que os pescadores atiram fora grandes montes, quando não querem nem mesmo dar-se ao trabalho de extraírem o azeite.

FONTE: Hercules Florence, Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas, de 1825 a 1829, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1941, página 

FOTO: Desenho de Hercules Florence, integrante da Expedição Langsdorff.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Dom Aquino toma posse no governo do Estado


Consequência de amplo acordo entre situação e oposição, depois da Caetanada, que resultou na renúncia do presidente Caetano Manoel de Faria e Albuquerque e na intervenção federal que durou um ano, assume o governo, em 22 de janeiro de 1918,o bispo de Cuiabá, Dom Francisco de Aquino Correa, no que foi chamado de governo da conciliação.¹

O Matto-Grosso, principal órgão da imprensa no Estado, publicou reportagem completa sobre o dia da posse do novo presidente:



Desde o alvorecer da manhã de 22,apenas se teve aviso da passagem da lancha Iguatemi em S. Antonio do Rio Abaixo, toda a Cuiabá se pôs em preparativos para receber carinhosamente D. Aquino, sabedores como eram todos de que S. Exa. Para aqui se encaminhava a bordo daquela embarcação.



As comissões incumbidas de irem ao encontro do querido eleito do povo mato-grossense puseram-se em ação, e às 9 ½ descia o Cuiabá a lancha 13 de Junho da Secretaria da Agricultura, levando a seu bordo a comissão central encarregada da recepção a D. Aquino, composta dos srs. Capitão tenente Paes de Oliveira, coronéis João Celestino, Gurgel do Amaral, Manoel Moreira, drs. Campos Junior e Geonísio de Mendonça, representantes do interventor federal; D. Antonio Malan por si, e padres Batista Couturon e Colbachini representando a Congregação Salesiana do Estado.


A bordo da “Rosa Bororo” desceu o coronel Alexandre Addor, intendente geral do município, acompanhado de diversos cidadãos da elite cuiabana, dentre eles o capitão Romão da Silva Pereira, representante da guarnição federal desta cidade.

Assim organizada a embaixada que ia ao encontro de D. Aquino, seguiu improvisada flotilha até um pouco abaixo do Poço Grande onde foi encontrada a Iguatemi que sulcava, garbosamente embandeirada as águas barrentas do Cuiabá.

Passando daí em diante a acompanha-la os transportes que tinham ido ao seu encontro, seguiram-na até a usina do sr. Joaquim Martins, onde as diversas comissões daqui enviadas transbordaram para o Iguatemi, apresentando então a D. Aquino as boas-vindas  e votos de felicidade pelo seu governo.,

Prosseguindo os itinerantes em demanda da cidade, aqui desembarcaram por volta de meio dia, sendo D. Aquino alvo das mais estrepitosas palmas ao pisar na terra cuiabana.

Ao desembarcar em companhia do dr. Camilo Soares, que o fora trazer a bordo da Iguatemi, foi saudado pelo cel. Alexandre Magno Addor que em nome do governo municipal apresentou boas vindas à S. Exa.

Do seio do povo dirigiu a palavra ao recém vindo, o sr. Tomé Ribeiro.

O CORTEJO

Depois de recebidos por D. Aquino os cumprimentos de diversos representantes dos partidos políticos do Estado, de congregações religiosas e da imprensa, organizou-se imponente cortejo que respeitosoe vivamente possuído de entusiasmo, acompanhou S.Exa. em demanda da residência oficial.

Ao passar o virtuoso prelado em frente a a igreja de S. Gonçalo, de uma tribuna ali improvisada, saudou-o um inteligente aluno do Liceu Salesiano, sendo logo substituído pelo delegado da sociedade de S. Luiz Gonzaga que apresentou em nome de seus consócios votos auspiciosos de boas vindas a Dom Aquino.

Em sinal de estima para com este futuroso rebento da estirpe cuiabana, discursou também enaltecendo-lhes as virtudes morais e cívicas e augurando dias venturosos no seu governo a gentil senhorita Alda de Oliveira.

Falou por último, abundando nos mesmos conceitos dos oradores que o precederam o sr. João Nunes.

Continuando seu caminho o préstito cívico teve que parar novamente à praça da República para ouvir o ilustre dr. José Mesquita, que ali pronunciou um substancioso discurso, saudando o presidente eleito em nome do povo mato-grossense.

Abafadas pelas mais estrepitosas palmas as últimas palavras do orador, o préstito que cada vez mais se avolumara atravessou por entre duas alas formadas pelas alunas de todas as escolas e colégios públicos e particulares de Cuiabá, tendo D. Aquino feito o trajeto da República até ao palacete de sua nova residência, debaixo de uma verdadeira chuva de flores que lhe arremessava a petizada vivaz de nossas escolas.

NA RESIDÊNCIA PRESIDENCIAL

Chegando D. Aquino Correa no palacete da rua Pedro Celestino onde está residindo, aí saudou-o pela Assembleia Legislativa o sr. desembargador Trigo de Loureiro que em nome da corporação política a que pertence, hipotecou ao governo que se ia iniciar, todo o apoio e colaboração do poder legislativo estadual.

DOM AQUINO FALA AO POVO DE CUIABÁ
Depois de ouvida atentamente a palavra do representante da Assembleia Legislativa, ficou a multidão que concorrera às festas da recepção a D. Aquino, sôfrega por ouvir-lhe a palavra sempre fluente e a frase sempre burilada.

S. Exa. Começou o seu discurso por agradecer nominalmente a todos os que o haviam saudado ao chegar a esta cidade, em nome individual ou por mandato e terminou por agradecer em palavras repassadas de gratidão e sinceridade o carinho com que vinha sendo distinguido.

Na sua bondade em tudo revelada, não esqueceu nem mesmo o concurso prestado pelos selvícolas à sua brilhante recepção.

Perorando acentuou o desprendimento dos partidos políticos do Estado aceitando a sua candidatura à Presidência, para se firmar um regime de paz e de concórdia, e enalteceu a colaboração dos drs. Wenceslau Brás e Camilo Soares, pela vitória desta primeira etapa na política de Mato Grosso.

As últimas palavras de S.Exa. foram acompanhadas dos mais expressivos aplausos, findos os quais dispersou-se a massa popular

O COMPROMISSO DO PRESIDENTE ELEITO E DOS SEUS SUBSTITUTOS LEGAIS

Às 17 horas penetrou no edifício onde funciona a Assembleia Legislativa, que estava reunida em sessão. S.Exa. D. Aquino Correa, que foi ali recebido pelos deputados: drs. Eurindo Neves, Rangel Torres e cel. Pilades Rebuá, que o levaram a tomar assento à esquerda do presidente da Assembleia, o vice em exercício, cel. Faria Albernaz.

Para o fim de prestar o compromisso do cargo de 1° vice-presidente do Estado, compareceu ao passo da Assembleia o dr. Antonio Ferrari, bem como o capitão Paes de Oliveira, para fazê-lo ao de 3°.

Prestado por S.Exa. D. Aquino o compromisso e pelos seus substitutos constitucionais já referidos, ouviu-se demorada salva de palmas, logo que o presidente da Assembleia proclamou empossados os cidadãos compromissados.

Ao se retirar D. Aquino do edifício da Assembleia, fora como acontecera ao penetrar ali, recebido com as continências de estilo, prestadas por uma companhia do 1° Batalhão da Força Pública, comandada pelo cap.Benedito Augusto de Carvalho e pelo esquadrão de cavalaria.

Tanto na ida como em seu regresso teve uma concorrência numerosíssima no seu acompanhamento.

NO PALÁCIO DO GOVERNO

De volta da Assembleia D. Aquino se dirigiu ao palácio do Governo onde foi recebido pelo dr.Camilo Soares e seus auxiliares.

Este, na qualidade de interventor federal, leu perante S. Exa. uma exposição de sua gestão no período em que aqui desempenhou funções governamentais e terminou por apresentar a D. Aquino Correa, votos de felicidade pelo seu governo.

Respondendo S. Exa. às palavras do dr. Camilo Soares, disse que o seu programa de governo podia se reduzir a esta trilogia: paz, economia e trabalho..

Referindo-se à primeira das facetas do plano traçado, disse, precisamos ter uma paz generalizada e completa, isto é, mantê-la entre o Estado e os poderes centrais da República+, cultivá-la entre si os poderes constituídos do Estado, e procurarem-na de modo eficiente os partidos políticos, conservando-se mesmo cada um em seu posto e independente de fusão.

S. Exa. encareceu depois as conveniências de rigorosa economia em seu governo para o que disse muito contar com o poder legislativo, e, por último apelou para todas as forças vitais do Estado, para, sob os auspícios da concórdia, da economia e do trabalho promovermos o progresso e o engrandecimento de Mato Grosso.

Retirando-se S. Exa.do palácio do Governo, sendo-lhe prestadas as continências da pragmática, dirigiu-se à sua residência acompanhado de crescido número de autoridades e amigos.²
 

FONTE: ¹Rubens de Mendonça, História do Poder Legislativo de Mato Grosso (volume I), Assembleia Legislativa, Cuiabá, 1967, Página 111. ²O Matto-Grosso, (Cuiabá) 24 de janeiro de 1918.

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