sábado, 11 de novembro de 2017

Governo paraguaio aprisiona governador de Mato Grosso



O governo do marechal Solano Lopes aprisiona em 12 de novembro de 1864, o navio brasileiro Marquês de Olinda, que transportava para Cuiabá o governador nomeado da província de Mato Grosso, coronel Frederico Carneiro de Campos. A agressão foi a senha para a eclosão da guerra do Brasil, Argentina e Uruguai contra a república guarani, que duraria cinco anos, com a derrota do país vizinho. O episódio é narrado pelo historiador Acyr Vaz Guimarães:

Em 12 de novembro de 1864, subia barco brasileiro, pacificamente, as mansas águas do rio Paraguai, rumo à província de Mato Grosso, levando seu futuro presidente – o coronel Frederico Carneiro de Campos, que substituiria o general Albino de Carvalho, quando recebe, inesperadamente, depois de passadas as águas de Assunção, já distante da capital, um tiro de canhão de navio paraguaio, avisando-o de que fizesse alto! O navio – o Marquês de Olinda, da companhia de navegação que servia à linha de Mato Grosso, foi apresado por ordem do presidente López. Foi o primeiro tiro da guerra!¹

O repúdio brasileiro ao ato do governo do país vizinho foi traduzido no editorial de um jornal da corte:

Um atentado selvagem, no intuito de se fazer ao Império um ofensa, acaba de ser consumado pelo governo da república do Paraguai.

Confirma-se a notícia do arrestamento do vapor Marquez de Olinda nas águas de Assunção e do aprisionamento do presidente nomeado para a província de Mato Grosso, o sr. deputado Frederico Carneiro de Campos.

Ainda bem! Por mais selvagem que seja esse ataque imprevisto e covarde, por mais ignominioso que seja esse atentado de pirataria contra um vapor mercante, que sulca as águas do Paraguai na fé de tratados solenes, por mais injustificável que seja essa ofensa ao direito das gentes e à soberania de uma nação, a quem deve o Paraguai a sua independência e nacionalidade, folgamos de que a ocasião se ofereça para que o governo imperial, por um ato de virilidade, restaure no Rio da Prata o prestígio das armas do Império, a honra nacional ali constantemente ultrajada.

A nova situação criada pela agressão inesperada e brutal por parte de um governo que não tem da jurisprudência internacional e da civilização moderna, senão noções imperfeitas e notícias remotas, impõe ao país e ao governo árduos sacrifícios, pesados deveres.

No estado a que chegaram as coisas, um só caminho se oferece ao governo para desafrontar a dignidade do império de tamanha injúria e esse caminho é o da Assunção.

É necessário que dentro de pouco tempo todo o país saiba, ou que se nos deram satisfações cabais, solenes e garantias de paz e segurança futura, ou que, no caso contrário, a capital dessa república foi arrasada pela nossa esquadra.

Não há meio termo. Nada tem que fazer a diplomacia com um governo de ordem semelhante. Não temos que debater um pleito com uma nação civilizada, mas simplesmente limpar a estrada fluvial de Mato Grosso de alguns salteadores, emboscados nas florestas.

A ocasião é azada. Não a buscamos nem a desejáramos. Mas somos agredidos e temos o dever de reagir.

Energia, atividade, firmeza e resolução é o que pedimos e é o que esperamos do governo. Não há divergências políticas, nem questões internas relativas à administração que possam prevalecer em face de tais emergências. E assim como nós não duvidamos do patriotismo do governo, não duvida o governo do patriotismo dos brasileiros.

De que pode o governo carecer para abrir uma campanha gloriosa, elevando o nome e a dignidade do Brasil à altura, que deve sempre conservar?

De dinheiro? Tê-lo-há. De soldados? Te-los-há também. 

Se a França, segundo o dito de um estadista célebre, era bastante rica para pagar a sua glória, o Brasil é também bastante rico para resgatar a sua honra e salvar os destinos do Império e o crédito de seu nome de um abismo de vergonha.

À hora em que escrevemos deve estar resolvida a questão oriental. Tomado o Cerro Largo, tomado o Salto, tomado Paisandu, como a esta hora o deverá estar, qualquer que seja a posição ulterior das nossas armas no solo da República Oriental, é mais que provável que um governo menos bárbaro tenha substituído ao atual governo de Montevideo, e que a capital da república seja conservada em poder do general Flores.

Do governo argentino não temos que esperar traição ou fraqueza, enquanto o espírito profundamente nacional e profundamente liberal dessa república, seja alentado por um governo ilustrado e americano como o do general Mitre e por uma imprensa ardente e patriótica como a de Buenos Aires.

O que convém é que o governo assuma neste negócio uma atitude digna e enérgica. Para auxiliá-lo na árdua missão que os acontecimentos lhe incumbem, pode contar com o apoio de todos os brasileiros. Não cremos que haja um só cidadão, que em circunstâncias tais, lhe recuse o seu concurso desiteressado.

Na hora do sacrifício como não há divergências nem repugnâncias que creem obstáculos à marcha livre e desembaraçada do governo.

E quando sucessos imprevistos e deploráveis colocam em suas mãos a honra e o futuro da nação, fora fazer injúria ao caracter brasileiro supor que alguém se mostre indiferente à sorte dos nossos bravos concidadãos, que a esta hora derramam nobremente o seu sangue e arriscam a vida em terra estrangeira para defender a segurança e a dignidade do Império.

Pela nossa parte, confiamos no patriotismo do governo e esperamos que ele se mostrará digno depositário do penhor valioso que a nação lhe entrega.

Não há que duvidar do resultado da luta. Por esse lado pode o espírito público tranquilizar-se, porque em última análise o triunfo nos caberá. Cumpre, porém, que todos os cidadãos, unidos em um só pensamento, prestem ao governo todo o auxílio e coadjuvação.²

Tendo permanecido prisioneiro do inimigo, o governador nomeado de Mato Grosso, Frederico de Campos, vítima de tortura e maus tratos, faleceu, no início da guerra, no presídio de Paso Pocu.


FONTE: ¹Acyr Guimarães, Mato Grosso do Sul, sua evolução histórica, Editora UCDB, Campo Grande, 1999, página 134. ²Diário do Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1864.

IMAGEM:vapor Marquez de Olinda, acervo Marinha do Brasil.



terça-feira, 7 de novembro de 2017

Morre Generoso Ponce





Aos 58 anos falece no Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1911, no exercício do mandato de deputado federal, Generoso Ponce, o político de maior influência e prestígio em Mato Grosso nas três primeiras décadas da República. Nasceu em Cuiabá e começou a militar na política, ainda no Império, como membro do partido liberal. Com a proclamação da República, aderiu ao novo regime, elegendo-se deputado constituinte e vice-presidente do Estado, no governo de Manoel Murtinho.

Em 1892 chefiou a contra-revolução aos seguidores do general Antônio Maria Coelho, devolvendo o governo a Manoel Murtinho, deposto num golpe militar, chefiado pelo coronel Barbosa, de Corumbá.

Em 1894 elege-se senador, cargo que ocupou até 1902. Em 1906 comandou, a partir de Corumbá, onde estava residindo e estabelecido como comerciante, a rebelião que derrubou Totó Paes do governo. Em 1907 assume a presidência do Estado, quando por motivo de doença, renunciou em favor de seu primeiro-vice, Pedro Celestino Correa da Costa, sendo eleito deputado federal. 



FONTE: Estevão de Mendonça, Datas Matogrossenses, (2ª edição) Governo de Mato Grosso, Cuiabá, 1973, 245

domingo, 5 de novembro de 2017

Generoso Ponce, coronel honorário do exército brasileiro




Ao líder político mato-grossense, coronel da Guarda Nacional, Generoso Ponce, é concedida por decreto do presidente da República, de 5 de novembro de 1894, carta de oficial honorário do Exército Brasileiro:

“O marechal Floriano Peixoto, vice-presidente da República dos Estados Unidos do Brasil:

Faço saber aos que esta Carta Patente virem que por decreto de cinco de novembro de 1894, resolvi conceder, como por esta concedo, ao Coronel Comandante Superior da Guarda Nacional de Mato Grosso Generoso Paes Leme de Sousa Ponce as honras de (ilegível) de Coronel do Exército por serviços prestados à Repúbica. 

Pelo que mando à autoridade a quem compete, que por tal o tenha e reconheça. Em firmeza do que lhe mandei passar a presente Carta.
Cidade do Rio de Janeiro, aos quatorze dias do mês de novembro de mil oitocentos e noventa e quatro, sexto da República".




FONTE: Generoso Ponce Filho, Generoso Ponce, Um Chefe, Pongetti, Rio de Janeiro, 1952, página 121.

sábado, 4 de novembro de 2017

Carnificina de oposicionistas na fazenda Conceição


Usina Conceição, no início do século XX


A polícia do coronel Totó Paes, que aliado aos irmãos Murtinho, expulsou o senador Generoso Ponce, do Estado, em 4 de novembro de 1901, cerca a sede da fazenda Conceição, do primeiro-vice-presidente João Paes de Barros, que acabava de romper com o governo, e prende um grupo de oposicionistas refugiados naquele estabelecimento rural, vizinho da usina Itaicy, de Totó Paes, prende a todos, exceto o vice-presidente que é obrigado a assinar a carta de renúncia, seleciona um grupo que é levado a Cuiabá e separa dezessete que são executados e atirados no lugar conhecido por baia dos Garcêz, no distrito Santo Antonio Rio Abaixo, atual Santo Antonio do Leverger. 

O episódio, que se transformou no discurso da oposição, estigmatizou o período Totó Paes, encerrado com a sua morte em 1906. O fato, de repercussão nacional, foi relatado pelo coronel João Paes de Barros, proprietário da usina onde as vítimas foram aprisionadas:

Feita a seleção dos que deveriam ir por terra a Cuiabá, soube que foram todos amarrados de braços para trás pela escolta que os conduzia, seguindo assim a pé até o lugar denominado "Potreiro", onde, junto a uma baia, conhecida pelo nome de "Garcêz", foram um a um fuzilados, saqueados e os cadáveres com os ventres partidos em cruz para não boiarem, lançados na água à voracidade das piranhas, ficando aí postada uma guarda até que desaparecessem.

Da usina foram ouvidos os tiros, pois, em linha reta, é pequena a distância àquela baia, a qual posto que situada na mesma margem em que está a usina, fica-lhe em frente, pela grande curva que forma ali o rio Cuiabá.

Antes da partida da escolta, Eugênio Vital que tinha hábito de andar grande distância a pé, pediu que lhe permitissem seguir a viagem a cavalo, embora preso e devidamente seguro; a esta súplica foi-lhe respondido;- "que não era muito longa a distância a caminhar, que logo chegariam ao fim". E assim foi.

Ao cair da noite parte da escolta, que seguira com os presos por terra, regressara à usina, narrando sem reservas os horrorosos detalhes da carnificina havida na baia dos Garcêz.

FONTE: Generoso Ponce Filho, Generoso Ponce um chefe, Pongetti, Rio de Janeiro, 1952, página 311.


FOTO: Album Graphico de Mato Grosso, Corumbá, 1914.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Morre o governador Frederico Campos


Frederico Campos não chegou a conhecer o Estado

Preso em Assunção pelo governo paraguaio quando se dirigia a Cuiabá para tomar posse, o presidente Frederico Campos, de Mato Grosso, sucumbe em prisão no país inimigo em 3 de novembro de 1867.

Bacharelou-se em Matemática. Assentou praça em 14 de janeiro de 1822. Segundo-tenente em 20 de junho de 1823. Participou da Guerra da Independência, tendo então recebido medalha. Promovido a primeiro-tenente em 12 de outubro de 1824, a capitão em 25 de janeiro de 1828, a major em 13 de setembro de 1837, a tenente-coronel graduado em 7 de setembro de 1842 e a efetivo no posto em 14 de maio de 1844, chegando a coronel em 2 de dezembro de 1855.
Pertenceu ao Corpo de Engenheiros.
Presidiu a Província da Paraíba. Em 12 de novembro de 1864, nomeado presidente de Mato Grosso, viajava, para tomar posse, no paquete “Marquês de Olinda”, que foi atacado e capturado por Solano Lopez, um dos fatos que dariam início à guerra contra o Paraguai. Frederico Carneiro de Campos foi feito prisioneiro.


Comendador da Ordem de Avis e dignitário da Ordem do Cruzeiro. Admitido como sócio correspondente do IHGB em 10 de novembro de 1842.

FONTE: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 2017.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Paulistas abandonam o forte de Iguatemi




Fundada em 1767 pelo governo de São Paulo, castigada pela insalubridade e fustigada por frequentes ataques espanhóis, é abandonada, em 27 de outubro de 1777, no extremo sul do Estado, a colônia de Iguatemi, oficialmente conhecida como Presídio Nossa Senhora dos Prazeres:

A situação do presídio foi se agravando, pela falta de pessoal, medicamentos e intensificação das febres, em consequências das quais veio a falecer o capitão mór João Martins de Barros.

Em 1777, encontravam-se respondendo pelo comando o capitão José Rodrigues da Silva e o capitão Antonio Ramos Barbas. Apresentou-se então à margem oposta do rio, vindo de Assunção, o capitão Pinido, comandando forte contingente e intimou o presídio a render-se. Houve rápida refrega, onde pereceu o capitão José Rodrigues da Silva. Faltando munição aos demais defensores, regressaram estes ao presídio. O inimigo então exigiu dos comandantes, agora tenente Germano da Costa Tavares e o capelão, a rendição, o que resolveram estes aceitar, assinando a capitulação, reconhecendo a área como terras pertencentes à coroa espanhola. Foi-lhe ordenado a retirada imediata, com seus pertences, deixando armas e os sinos da igreja. O fato ocorreu a 27 de outubro de 1777.

Desocupada a vila, os espanhóis apossaram-se do que lhes foi possível, destruindo o presídio, onde não deixaram pedra sobre pedra.

Regressando a São Paulo, os signatários da rendição foram recolhidos presos à Fortaleza da Barra de Santos, para serem submetidos a conselho de guerra.
E assim, mais uma vez tornou-se desértica a região, só restando vestígios do que fora o presídio. 



FONTE: Athamaril Saldanha, Capataz Caati, in Ciclo da Erva-Mate em Mato Grosso do Sul (1883-1947), Instituto Euvaldo Lodi, Campo Grande, 1986, página 460.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Migração gaúcha preocupa Murtinho



Um dos donos da Empresa Mate Larangeira, o ex-governador Manoel Murtinho, escreve ao seu correligionário e atual governante estadual, Generoso Ponce, em 25 de outubro de 1907, preocupado com as grandes levas de migrantes do Rio Grande do Sul que chegavam ao Sul de Mato Grosso:

Acresce que a proposta submetida pela referida empresa à deliberação da Assembleia, além de consultar altos interesses do Estado, tanto no presente como no futuro, conforme se mostrou a meu ver cabalmente, na exposição de motivos, que acompanhou, ainda viria a facilitar a solução de um temeroso problema, que não pode deixar de preocupar a alta administração do Estado.
Aludo à emigração rio-grandense, que de dia a dia vai se avolumando e estendendo pelo sul do Estado, onde os adventícios tratam logo de ocupar terrenos devolutos pela facilidade que encontram e que faz parecer que dentro de mais alguns anos, essa colônia dominará pelo seu número e extensão, toda aquela região, constituindo por assim dizer Estado no Estado.



FONTE: Pedro Valle, A divisão de Mato Grosso, Royal Court, Campo Grande, 1996, página  23

Força brasileira deixa Uberaba

4 de setembro de 1865 Para dar combate ao Paraguai, cujas forças em dezembro de 1864 invadiram o Sul de Mato Grosso, paulistas e min...